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07 setembro, 2009

Das lembranças, livros e faroeste!

Por Cau Alexandre


Algumas das minhas estranhas habilidades é a de lembrar de algumas histórias bem antigas e ser capaz de esquecer detalhes recentes com muita facilidade (principalmente nomes e números).

Talvez as lembranças, em mim, sejam como vinho e precisem depurar-se por um tempo e só então depositam-se num lugar tranquilo da memória, ao alcance dos olhos da alma... Prontas para serem deslumbradas e ensinarem ou simplesmente mostrarem algo bom de ser lembrado! Uma lapidação que não lhes tira a verdade, mas lhes dá o brilho necessário!

Uma dessas lembranças tem a forma de um livrinho de bolso. Lembro do meu pai carregando aquele livrinho, como o nome já dizia, um exemplar de bolso. Aonde quer que ele fosse, ali estava o livrinho. Não o mesmo, mas ele sempre tinha um no bolso!

Desde que eu era muito pequena via aqueles livrinhos na escrivaninha do meu pai, junto as suas canetas, seus blocos de notas, suas pequenas ferramentas com as quais ele brincava de relojoeiro (e eu adorava mexer naquelas chavinhas de fenda, alicates miudinhos e talvez daí venha essa minha mania de brincar de artesã, não só de palavras).

Os livrinhos eram uma constante. Eu não entendia porque eles nunca eram os mesmos. Mal sabia eu, nos meus primeiros anos de estudante letrada, "doutora do ABC" e parca leitora que livros são preciosidades e que têm valor de próprio de venda e troca. Trocando em miúdos... Sebos, amigos, trocas. Anos depois fui com meu pai a uma banca de revista conhecida no centro da cidade, na qual ele comprava e trocava os livrinhos.

Meu pai devorava aqueles livros. Nas suas horas de folga, nos seus intervalos de trabalho, nos momentos que antecediam seus famosos cochilos antes do jantar, lá estava ele e seu livrinho.

Depois de um tempo eu olhava aquelas letras esquisitas com aqueles nomes também meio esquisitos e sem me importar muito com o que significaria aquele tal de "western", seguia com minhas bonecas, suas roupinhas e minhas preciosas mobílias de brinquedo.

Não lembro muito bem, mas um dia, na minha incansável busca por tesourinhas que cortassem as roupinhas de papel das minhas mais novas 'filhinhas' feitas de papel e papelão, achei um daqueles livrinhos do meu pai. Ele havia esquecido dentro da primeira gaveta da escrivaninha.

Sentei-me lá. Olhei aquela capa, o homem de cara feia nela, suas armas o lenço no pescoço. Montado em um cavalo, eu acho. Homem estranho, zangado. Como é que meu pai que era tão bonzinho comigo poderia gostar de ler o livro daquele homem tão zangado?

Um livrinho sem graça. Muitas letrinhas e poucas figuras. Quase nenhuma e todas em preto e branco (por assim dizer, pois as páginas eram amareladas... um papel diferente do que eram feitos meus livros que eu lia na escola). Realmente um livro sem graça pra uma criança pequena.

Muitos anos depois, como caçula, herdei muitas coisas de meu pai. Material e geneticamente. Herdei suas 'ferramentinhas' que já não arrumavam relógios, mas pequenas bijus... Coisa mais tipicamente femininas. Herdei suas xícaras preferidas. Herdei algumas de suas fotos (a maioria minha mãe sequer me permite saber onde estão... São o tesouro particular dela). Herdei seu gosto pela imagem e pela fotografia, explico, por fotografar, mas confesso que continuo sem jeito e não-fotogênica e sem paciência pra ser modelo de qualquer fotógrafo (o que sempre foi tristeza para o meu pai fotógrafo-amador). Herdei o prazer por viajar... Prazer que o acompanhou até seus últimos dias de vida. Herdei um prazer imenso pela escrita... ele por números, escalas e engenhos... e eu pela palavra engenhosamente artística. Herdei a persistência (às vezes teimosia). Herdei o gosto pela leitura, que só se manifestou em sua força maior lá pela adolescência, como refúgio e depois como prazer. Uma pena que no espólio não havia nenhum livrinho daqueles. Na hora nem me dei conta... Hoje lamento!

Pensando na minha vida literária, percebo que meu primeiro romance denso e volumoso veio em tempo tardio, aos 13 (tardio pra 20 anos atrás... hoje é um milagre fazer um adolescente ler algo - e que bom que eu ainda sei fazer esse milagre com alguns adolescentes). Mas antes, minha vida esteve povoada com os heróis dos gibis, ao gosto das crianças como a Mônica, o Chico Bento e Penadinho - que eu adorava; Wolverine, Homem-Aranha e tantos outros Marvel, DC e muitos mais. E minha mãe me perguntava como eu podia gostar daqueles "homens feios de máscara". Eu não sabia. Sempre atribui esse gosto esdrúxulo dos quadrinhos ao convívio com meus irmãos homens. O que também me rendeu um maior entendimento literário com o gosto literário dos amigos homens da escola, da rua, do curso. Mas agora percebo que foi bem antes disso...

Em meio a tantas lembranças, estou eu lá, olhando o livrinho sem graça na gaveta da escrivaninha do meu pai. E só hoje me dou conta que minha primeira paixão-infantil-literária foi por John Wayne!




Mais uma xícara de café, e mais algumas boas lembraças...