Páginas

02 abril, 2011

A PERDA

Por Cau Alexandre 

Depois de pegar mais alguns insetos coloridos para a coleção e colher flores que seriam presentes para a mãe e amenizariam as reclamações por se atrasar para o almoço, Catarina seguia para casa.

Catarina, alta para seus dezesseis e ainda absorta em seus pensamentos de menina-moça, era filha única de um casal cujas esperanças de ter uma prole foi minguando com os anos. Nasceu quando eles tinham há muito passado da idade considerada aceitável para se ter filhos. Ela era seu milagre, mas a maturidade era um antídoto contra os riscos da proteção demasiada.

Com o pai tinha os momentos mais agradáveis do dia. Ele, sempre cordato, cultivara o hábito da leitura desde os anos que trabalhara na então acanhada biblioteca da cidade. Encontrava em Catarina uma cúmplice e herdeira daquele que era um dos seus maiores prazeres.

A mãe era enérgica no tratamento com a filha, mas sem descuidar do carinho. Seu desvelo na arrumação da casa e no conforto da filha e do marido beirava as raias da obsessão.

Catarina cultivava seu mundo, entre seus insetos, leituras e suas incursões escolares, como qualquer mocinha de sua idade, tudo com seu olhar curioso e atento de quem observa o mundo ainda que timidamente.

Foi com inquietação que Catarina recebeu o primeiro impacto de desejo de mulher, indício de suas mudanças interiores e prova que estava completamente despreparada para aquele tumulto crescente e completamente novo que se desencadeara ao conhecer o novo professor de Literatura.

Era jovem, bem jovem. Vinte e quatro anos. Modos despojados, movimentos leves e seguros. Caminhava pela sala de aula com passos ritmados, enquanto se apresentava com uma voz grave e bem modulada, encobrindo os cochichos das outras meninas. Este encontro a desconcentrou pelo resto do dia. E à noite, enquanto o pai concluía a leitura do último capítulo de Iracema, Peri assumiu o rosto do professor, na cor dos olhos, na tez clara e na expressão melancólica.

E entre as Iracemas e Martins, Helenas e Estácios, Bentos e Capitus, seguia as noites de Catarina, povoadas por suas lembranças, misturadas com poemas e romances, sempre protagonizados por ela mesma e ele, o professor. Sensações nada comparáveis a dos encontros furtivos com alguns garotos da escola, ou a qualquer coisa que já tivesse sentido até ali. Aquele homem lhe impregnava completamente os sentidos.

A completa e total atenção de Catarina às palavras que ele dizia tomou um tom de devoção. E isso não passou despercebido a ele, que também já atinara que aguardava com ansiedade cada vez maior aquelas aulas. Quem sabe um misto de afirmação pelo próprio trabalho, o primeiro, ou algo a mais na moça que sempre lhe era tão atenta.

Houve um dia em que ela estava especialmente exuberante, os cabelos castanhos se derramavam sobre os ombros e pescoço morenos. Uma mecha longa perdia-se na curva dos seios por dentro do decote displicente. Os seios subiam e desciam enquanto ela mantinha a boca de lábios cheios entreaberta, concentrada na escrita. Permitiu-se devassá-la sem reservas; Neste ponto, já lhe provava o gosto e se continha quase inutilmente, para mais tarde, sozinho, deixar que ela permanecesse em seus devaneios.

No decorrer dos dias a metafísica do não-beijar, não-exalar, não-pertencer, e ao mesmo tempo querer, sentir, tocar sem nenhuma negação, tomou dimensões de sofrimento palpável. Ambos sabiam o que cada um não pedia, não podia, não dizia.


Veio o término do ano letivo e transferência do professor; mudou-se com a família para outra cidade. Pela primeira vez em sua vida, Catarina soube o que era perder sem sequer haver possuído.

copyright©caualexandre2011